Artigos Técnicos

A importância do uso de regulador de crescimento em trigo

Por Hebert Krupnishi de Lima

Os cereais de inverno, principalmente o trigo, desempenham importante papel no sistema de rotação de culturas e de produção dentro da propriedade, além de ser importante fonte de palha para o sistema de plantio direto, agregando positivamente em ganhos de produtividade e rentabilidade na cultura posterior de verão, bem como no sistema de produção como um todo.

Se compararmos financeiramente a cultura do trigo com uma aveia preta apenas para cobertura no inverno, temos o trigo como uma opção mais favorável para o sistema de produção como um todo, visto que os custos de implantação da aveia preta para cobertura serão alocados na próxima cultura do verão, já que não temos renda direta proveniente dessa aveia. Já com o trigo, além da renda direta, também temos outras vantagens, tais como melhoria de fertilidade do solo já que o trigo recebe adubação, otimização de máquinas agrícolas e mão de obra durante o inverno.

Desta forma, a cultura do trigo tem se tornado cada vez mais técnica e recebido altos investimentos provenientes de empresas privadas, que buscam constantemente materiais novos de trigo com elevados potenciais produtivos aliados a resistência a doenças, graças ao melhoramento genético. No entanto, para que esses altos tetos produtivos sejam alcançados, precisamos respeitar algumas importantes técnicas de manejo, como época de semeadura, população de plantas, controle de pragas, doenças e plantas daninhas, além do uso racional de fertilizantes de acordo com a demanda dos novos cultivares, principalmente dos nitrogenados. Por ser usados em altas quantidades, e promover alto vigor das plantas, o nitrogênio pode aumentar a probabilidade de ocorrerem acamamento de plantas na cultura do trigo, afetando negativamente a produção e também a qualidade do produto final a ser colhido, além de dificultar a colheita mecânica. Para se evitar todos esses problemas, fazemos uso do regulador de crescimento na cultura do trigo.

O regulador de crescimento mais comum utilizado em cerais de inverno tem por nome comercial de Moddus, cujo ingrediente ativo é o Trinexapaque-Etílico, que promove a redução no comprimento do colmo, com redução na estatura da planta, evitando assim o acamamento, conforme foto abaixo (Foto 1).

 

Foto 1: Comparativo de plantas de trigo onde foi realizado aplicação com Regulador de Crescimento a base de Trinexapaque-Etílico e onde não foi aplicado (PENCKOWSKI, 2016 p. 22)

Além de reduzir a estatura de plantas, este regulador de crescimento também apresenta a característica do engrossamento da parede do colmo (Foto 2), em algumas cultivares de trigo. Tal produto é absorvido pelas folhas e translocado até os nós dos colmos atuando no balanço das giberelinas, que são hormônios vegetais responsáveis pelo estímulo à divisão e elongação celular.

Foto 2: Comparativo entre espessura da parede do colmo de planta de trigo com aplicação de regulador de crescimento a base de Trinexapaque-Etílico e planta sem aplicação (PENCKOWSKI, 2016 p. 19)

Além de o regulador reduzir o acamamento do trigo, seu uso ainda proporciona mudança na arquitetura das folhas, tornando-as mais eretas, o que facilita a penetração de produtos fitossanitários e melhora a absorção de luz. A mudança de arquitetura das folhas possibilita que principalmente as folhas do baixeiro permaneçam sadias e fotossinteticamente ativas por mais tempo, o que acaba refletindo positivamente em produção.

Segundo alguns autores na literatura, os ganhos de produtividade podem chegar a até 27% de incremento, mesmo não havendo ocorrência de acamamento nas plantas de trigo. Dentro dos ensaios realizados na Fundação ABC com regulador de crescimento em trigo (14 anos), estes ganhos de produtividade têm alcançados valores máximos de até 12%, com incrementos médios de 6,9 %, ou 411 kg/ha. Outro ponto importante é a melhor sanidade que as plantas que recebem o regulador de crescimento apresentam. Em função de terem as folhas mais eretas, as pulverizações de defensivos, como fungicidas, por exemplo, acabam conseguindo chegar em maior quantidade nas folhas localizadas no baixeiro das plantas.

O momento ideal para aplicação de regulador de crescimento em trigo é quando a maioria das plantas encontra-se no estádio de desenvolvimento conhecido como GS-32 (escala de Zadoks). O estádio GS-32 (Foto 3) é quando a planta mãe apresenta o primeiro nó visível e o segundo nó perceptível, afastados entre si a uma distância de 1 a 2 cm. Importante lembrar que este estádio de desenvolvimento GS-32 deverá sempre ser observado na planta mãe, e não nos perfilhos da planta.

Foto 3: Estádio GS-32 (PENCKOWSKI, 2016 p. 36)

Para que tenhamos sucesso na aplicação de regulador de crescimento em trigo precisamos fazer aplicação no momento ideal, pois caso a aplicação seja realizada antes do estádio GS-32 (Início da elongação), o regulador não cumprirá o propósito de reduzir porte das plantas. 

Se esta aplicação for realizada tardiamente (após o GS 32), o regulador de crescimento irá agir nos últimos nós da planta, que são nós próximos da espiga, podendo ter problemas com retenção de espiga dentro da bainha da folha bandeira lá no fim do ciclo. Em algumas variedades de trigo, que já apresentam a característica genética de serem menos propensas ao acamamento, podemos antecipar a aplicação do regulador de crescimento para a fase de perfilhamento. Dessa forma, a aplicação do regulador de crescimento estará focada apenas em alterar a arquitetura das folhas, visando os objetivos secundários, como melhorar eficiência na absorção de luz, penetração de defensivos no baixeiro, e possivelmente incrementos de produtividade.

Sendo assim, vários fatores devem ser analisados momentos antes de tomarmos a decisão de qual dose usar do regulador de crescimento. Um desses fatores é o clima, principalmente quanto às precipitações pluviométricas antecedentes ao estádio GS-32, pois caso tenhamos enfrentado condições de forte estresse hídrico momentos anteriores, o próprio estresse pode agir como um regulador de crescimento pela falta de agua, que é fundamental para o bom desenvolvimento das plantas. No entanto, observa-se que mesmo em período de estresse hídrico, aplicações de regulador de crescimento têm proporcionado incrementos de produtividade, justamente pela função de alterar a arquitetura das folhas, necessitando apenas um ajuste de dose para baixo, evitando problemas de retenção de espiga.

A fertilidade do solo em questão é outro ponto de extrema importância, pois temos que saber se o solo está dando condições ideais de nutrição para a cultura que está sendo manejada, no caso o trigo. Caso esteja ocorrendo deficiência de algum nutriente, as plantas poderão ter seu crescimento reduzido em função dessa deficiência nutricional, como o nitrogênio por exemplo. A presença de alumínio no solo pode acarretar um reduzido crescimento radicular, tornando assim as raízes menores e que absorverão nutrientes e agua em menor quantidade ainda, refletindo em crescimento reduzido da parte aérea também.

Outro ponto importante, já citado anteriormente inclusive, é a variedade de trigo que está sendo usada, pois algumas já apresentam resistência genética ao acamamento, onde podemos trabalhar com doses menores de regulador de crescimento e/ou até antecipar o momento da sua aplicação para o perfilhamento. Existem também algumas variedades que apresentam maior tendência ao acamamento, ou seja, são variedades mais exigentes na aplicação de regulador de crescimento, onde precisamos trabalhar com doses mais altas e a aplicação deve ser realizada no momento ideal que é o GS-32. Com base em todos estes itens, tem-se observado no campo uma variação de doses entre 200 a 500 ml/há de regulador de crescimento.

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