Artigos Técnicos

Potencial produtivo e sementes de alto vigor

Por Fábio Siebert

De uma maneira geral, o potencial produtivo de uma cultura é definido até a emergência das plantas. Após essa etapa um clima favorável e manejos de herbicida, inseticida ou fungicida podem apenas reduzir as perdas de potencial produtivo, mas não têm a capacidade de gerar incrementos no potencial genético de produção.

O potencial produtivo de uma lavoura está relacionado a vários fatores, dentre os quais podemos destacar:

Condições climáticas;
Época de semeadura;
Fertilidade do solo e adubação;
Genética da cultivar ou do híbrido utilizado;
Qualidade da semente;
Tratamento da semente;
Espaçamento e população de plantas;
Qualidade de semeadura.

No que se refere à qualidade da semente, essa pode ser classificada como qualidade genética, física, sanitária e fisiológica. A qualidade fisiológica da semente é definida basicamente pela sua germinação e seu vigor.

A germinação, avaliada pelo teste de germinação, procura determinar o máximo potencial germinativo da semente e proporciona para tanto, condições julgadas as mais favoráveis possíveis. Portanto, alta germinação constatada em laboratório não é garantia de alta emergência das plântulas em campo. Dessa forma, o teste de germinação não avalia frequentemente, o potencial fisiológico das sementes para um bom desempenho em campo. Avaliações consideradas mais consistentes com esta finalidade são realizadas por testes de vigor. O vigor expressa atributos mais sutis da qualidade fisiológica, não revelados pelo teste de germinação e é determinado sob condições desfavoráveis.

São bastante claros os conceitos sobre a germinação de sementes e o valor mínimo de germinação para comercialização de sementes é de 80%. Entretanto, são diversos os conceitos de vigor e não existem valores mínimos regulamentados para a comercialização das sementes. Além disso, existem diferentes testes conceituados para avaliação do vigor das sementes e é importante que o teste mais adequado seja utilizado para cada cultura e região de utilização da semente.

Um conceito de vigor atualizado recentemente é o da Associação Oficial dos Analistas de Sementes dos Estados Unidos (2009). Ela define vigor como sendo: “Aquelas propriedades das sementes que determinam o seu potencial para uma emergência rápida e uniforme e o desenvolvimento de plântulas normais sob ampla diversidade de condições de ambiente”.

Geralmente a importância do vigor de sementes fica evidente apenas quando um lote de sementes de baixo vigor é semeado e as condições para a emergência das plantas são desfavoráveis. Mas vale destacar, que a pesquisa já preconiza a utilização de sementes de alto vigor há vários anos, com os seguintes benefícios:

Maior velocidade de emergência;
Assegurar adequada população de plantas, sob diversas condições de emergência;
Maior desenvolvimento inicial de raízes e parte aérea, proporcionando maior interceptação de luz e água, podendo resultar em maior produtividade. 

É muito importante salientar que uma rápida germinação, emergência e rápido desenvolvimento inicial das plantas reduz o período em que estas ficam expostas à colonização por fungos e ao ataque de pragas. Este é um dos períodos de maior sensibilidade da cultura em seu ciclo, uma vez que os tecidos das plantas ainda estão formação e são bastante tenros. Isso reforça também a importância do tratamento de sementes, com os produtos e doses adequadas para cada tipo de situação, independente dos valores de germinação e de vigor do lote de semente utilizado.

Sementes mais vigorosas também apresentam maior capacidade de estabelecer o estande de plantas preconizado quando submetidas a condições adversas de emergência. Tais condições adversas podem ser além do ataque de fungos ou pragas como já foi mencionado, como também períodos de frio após a semeadura, assoreamento do sulco de semeadura devido à chuva forte ou profundidade de semeadura excessiva.

O potencial produtivo de uma lavoura também está diretamente relacionado à adequação do espaçamento entre linhas e a sua população de plantas. No que se refere à população de plantas, onde atuamos mais intensamente, essa é definida por fatores como cultivar ou híbrido utilizado, época de semeadura e fertilidade do solo da gleba. Quando a população estabelecida, por algum motivo não previsto, é significativamente diferente da população desejada inicialmente, o potencial produtivo da cultura é afetado negativamente. Nesse sentido, a utilização de sementes mais vigorosas pode ser considerada como um fator de “segurança” para que o estande adequado e planejado de plantas seja obtido.

Em relação ao maior desenvolvimento inicial de plantas provenientes de sementes mais vigorosas, podemos destacar ainda que, estas têm maior capacidade de explorar o perfil solo em busca de água e nutrientes, uma vez que possuem um sistema radicular mais bem desenvolvido. No que ser refere ao melhor desenvolvimento da parte aérea, essas plantas são favorecidas na competição com plantas daninhas pela maior interceptação de luz solar.

Na conclusão de diversos trabalhos científicos que abordavam esse tema, a maioria constatou que sementes mais vigorosas emergiram mais rapidamente e tem um desenvolvimento inicial de raízes e parte aérea melhor, e eventualmente podem resultar em maiores produtividades (de até 35%).

Em condições ambientais muito favoráveis para o desenvolvimento das culturas, com chuvas bem distribuídas e temperaturas adequadas, provavelmente não ocorrerão diferenças em produtividade entre culturas estabelecidas com sementes de diferente vigor. Mas em condições um pouco mais adversas para o desenvolvimento, o estabelecimento da população desejada com rapidez e uniformidade e um sistema radicular mais desenvolvido podem sim refletir em maior produtividade quando se utiliza sementes com alto vigor.

Vale reiterar que, para que a produtividade obtida na lavoura seja a mais próxima possível do potencial genético da cultura, cada detalhe importa. O solo precisa estar corrigido e a adubação deve estar coerente com a produtividade almejada. A cultivar ou híbrido utilizado precisa ser implantado em sua época preferencial e com a correta população de plantas. Além disso, é imprescindível que a semente seja de boa qualidade, tratada com fungicida e inseticida de acordo com o diagnóstico, e de germinação e vigor conhecidos para possibilitar ajustes na quantidade de sementes por metro visando atingir a população ideal. Os cuidados quanto à velocidade de semeadura também são muito relevantes, pois devem assegurar distribuição uniforme de sementes na linha e profundidade constante. Dessa maneira a maior parte do potencial produtivo da cultura estará estabelecido, e os manejos subsequentes serão realizados apenas visando manter esse potencial produtivo.

Figura 1 – Área de soja implantada em Castro na safra 16/17, com semente de 78% de vigor (lado esquerdo) e 95% de vigor (lado direito), logo após a emergência.

Figura 2 – Área de soja implantada em Castro na safra 16/17, com semente de 78% de vigor (lado esquerdo) e 95% de vigor (lado direito), 30 dias após a emergência.

Curiosidade:
Apenas para exemplificar como as produtividades atuais ainda estão muito abaixo do potencial genético das culturas, seguem abaixo os recordes mundias de produtividade de algumas culturas:

Soja: 11.553 kg/ha (Randy Dowdy, EUA, safra 2016);
Milho: 34.040 kg/ha (David Hula, EUA, safra 2017);
Trigo: 16.791 kg/ha (Eric Watson, Nova Zelândia, safra 2016/2017).

Fábio Siebert - Engenheiro Agrônomo – Castrolanda Cooperativa Agroindustrial. E-mail: fabiosiebert@castrolanda.coop.br

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