Artigos Técnicos

Tecnologia de aplicação de defensivos agrícolas

Por Marcos Kruppa Rogenski

      Compreende-se como tecnologia de aplicação a utilização dos conhecimentos técnicos e científicos, que proporcionam uma correta deposição do produto desejado no alvo (planta, solo, praga), na quantidade necessária, visando um menor risco de contaminação e uma maior economia na aplicação.

      Quando falamos sobre a utilização de defensivos, se deve ressaltar a grande diferença entre a pulverização e a aplicação propriamente dita. O processo de pulverização é a transformação do líquido em partículas ou gotas menores, sendo um processo físico-mecânico. Aplicação seria o processo posterior, que tem como objetivo a deposição das gotas no alvo desejado, levando em conta a densidade e o tamanho das partículas para obter o controle ou manejo desejado.

Características das gotas de pulverização

      A classificação das gotas (espectro) pode ser feita pelas classes de tamanho em relação ao seu volume total. Quando encontramos um espectro heterogêneo, ou seja, gotas de diferentes tamanhos, se tem na aplicação uma grande variação em termos de cobertura do alvo, risco de deriva, duração da gota no ambiente, podendo resultar em baixa eficiência do controle químico ou biológico desejado.

      O diâmetro médio volumétrico (DMV) é uma das ferramentas de análise do espectro da gota. O DMV é a divisão da massa dos espectros em duas partes: na primeira parte existe um determinado número de gotas finas, já na segunda parte as grossas; onde a soma do volume das finas deve ser igual a soma das grossas.

Tabela 1- Classificação de gotas pelo Diâmetro médio volumétrico

      Outro fator que deve ser considerado para obter um melhor resultado na aplicação dos defensivos é a densidade de gotas (DG), que representa o número de gotas por unidade de área (gotas/cm²). Essa variável está diretamente relacionada a quantidade de produto depositada sobre o alvo desejado. A eficiência da densidade de gotas também está ligada ao modo de ação do defensivo utilizado. Quanto maior o número de gotas por unidade de área, maior será sua cobertura, apresentando uma melhor eficácia em produtos de contato, por exemplo.

      Ao reduzir o tamanho dos espectros se tem maiores influências externas na sua vida útil, pois quanto menor a gota, maior será a área de contato com o ar, tornando-a mais suscetível a evaporação. Como exemplo, um comparativo da vida útil da gota de pulverização em diferentes diâmetros e condições atmosféricas simuladas em laboratório, conforme tabela a seguir

Tabela 2- Tempo de vida da gota em função da Temperatura e distância de queda

      Como é possível observar na Tabela 2, as condições ambientais juntamente com as características das gotas têm uma influência significativa no alcance do produto ao alvo desejado. Ao entrar no quesito deriva, na mesma linha de pesquisa, dados do tempo de queda da gota em diferentes diâmetros, conforme a Tabela 3. Pode-se observar que quanto menor o diâmetro das gotas, maior o tempo necessário para percorrer sua trajetória. Com isso, se consegue avaliar o risco de deriva, ou até mesmo a influência climática que a gota irá sofrer até chegar ao alvo desejado.

Tabela 3- Tempo de queda da gota em relação ao seu diâmetro

      Usando como base os dados referentes ao diâmetro médio volumétrico da gota, ao tempo de vida e de queda, é possível avaliar qual estratégia tomar visando determinadas condições climáticas e tipos de defensivos a serem usados, conforme a tabela abaixo.

Tabela 4 – Sugestão de gotas levando em consideração sua eficiência e seus riscos

Pontas de Pulverização

      A classificação das pontas pode ser feita levando em conta a forma do jato e o tipo de gota formada. Como principais modelos, encontramos as pontas de jato plano, as quais apresentam um ângulo de ação podendo variar de 60° a 120°, com amplo espectro de gotas, podendo variar desde as muito finas até muito grossas. Sobre as pontas do tipo leque, existe a opção do jato duplo, onde há uma proporção maior de gotas finas na pulverização. As pontas de impacto, tem por característica, um ângulo de ação partindo de 80° até 165°, sugerindo seu uso para herbicidas pré-emergentes, e defensivos de ação sistêmica, devido ao maior tamanho de gota produzida. Os jatos cônicos (vazio e cheio) apresentam ângulo de ação entre 70° e 80° apresentando gotas finas a muito finas, sendo uma opção para produtos com ação de contato ou sistêmicos, ressaltando o risco das condições climáticas interferirem na sua aplicação.

      As pontas com indução de ar são encontradas nas opções de jato plano, jato duplo, e jato cônico. Apresenta como principais vantagens, a menor influência no tamanho das gotas em caso de aumento de vazão/pressão, e a possibilidade de usá-las em condições climáticas impróprias às gotas finas e muito finas. Gotas finas sofrem maior influência do ambiente, diferentemente das pontas com indução de ar que, ao produzir gotas grossas, reduzem o risco de deriva e evaporação durante as aplicações. As gotas de maior diâmetro produzidas pelas pontas de indução de ar, apresentam um alcance inferior no terço baixo das culturas com alto índice foliar, sendo mais indicadas na utilização de produtos de ação sistêmica em condições adversas de aplicação.

       Com a finalidade de facilitar a escolha da ponta mais adequada, o setor de Mecanização Agrícola e Agricultura de Precisão (MAAP) da Fundação ABC desenvolveu o ABC PONTAS. O aplicativo gera uma lista ranqueada com as pontas mais estáveis de acordo com o tamanho da gota, vazão desejada, velocidade de deslocamento e tipo do jato fornecido pela ponta. O aplicado é compatível com o sistema Android e IOS, o qual está disponível em www.fundacaoabc.org/abc-pontas.

      A durabilidade das pontas está diretamente relacionada com o material de fabricação e com as características químicas e físicas dos produtos a serem aplicados. Das principais disponíveis no mercado, encontra-se em ordem crescente de resistência a abrasão as pontas de latão, polímero, aço inoxidável e cerâmica. Em questão das formulações aplicadas, os produtos na forma sólida (pós molháveis, GRDA ou suspensões concentradas), são mais abrasivos do que os concentrados emulsionáveis. A qualidade da água também interfere na durabilidade das pontas, onde partículas de areia, argila ou outros detritos reduzem significativamente sua vida útil.

      Um limite sugerido para troca da ponta de pulverização ocorre através de uma leitura da vazão. Para essa avaliação, se utiliza como base o coeficiente de variação, cuja finalidade é a demonstração da uniformidade da pulverização. Quanto mais próximo de zero, mais uniforme será a distribuição das pontas, ou seja, todas terão uma vazão muito próxima. Quando se encontra variações nas pontas, o coeficiente de variação nos dará um valor elevado, sendo assim, sugerido a troca das pontas. Um desgaste da ponta de pulverização pode acarretar aumento dos custos de produção, uma vez que, além do risco de fitotoxicidade devido a sobreposição de determinados ingredientes ativos, também existe o desperdício de produtos na aplicação. Seguindo o mesmo raciocínio, há a possibilidade de um aplique deficitário em algumas pontas, onde a efetividade no controle almejado pode ser comprometida, necessitando assim, uma nova aplicação.

Considerações finais

      O conhecimento e o uso das técnicas de aplicação de defensivos tornam a produção agrícola cada vez mais competitiva, onde se tem a possibilidade de reduzir desperdícios, melhorar a eficiência dos manejos fitossanitários através de uma deposição de gotas no local certo e na proporção adequada, reduzindo os riscos de contaminação ambiental. A necessidade de informações na área de tecnologia de aplicação, e seu uso, traz a possibilidade de tornar o que já é eficaz em algo ainda mais eficiente, através do uso correto das ferramentas disponíveis no mercado.

Marcos Kruppa Rogenski - Engenheiro Agrônomo da Castrolanda Cooperativa Agroindustrial Ltda

E-mail: marcoskr@castrolanda.coop.br

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