Artigos Técnicos

Tecnologia na agricultura – Um olhar para o Futuro

Por Rodrigo Soares Hilbert

     A mudança tecnológica na agricultura nos últimos anos provém da inspiração de pessoas e empresas que investiram recursos e principalmente o seu conhecimento em pesquisa e desenvolvimento na área, desempenhando um papel decisivo no atendimento às demandas de produtos e serviços agrícolas. O ambiente tecnológico de rápidas mudanças tende a influenciar os produtores nas suas tomadas de decisão e consequentemente tem demonstrado uma forte correlação com o aumento da produtividade agrícola.

     Sob aspectos históricos, a partir de meados da década de 60 a agricultura brasileira inicia o processo de modernização, com a chamada Revolução Verde, emergindo novos objetivos e formas de exploração agrícola e pecuária. A agricultura precisou reestruturar-se para elevar sua produtividade, e as exportações aparecem como estímulo para promover a agricultura a níveis mais elevados de modernização, uma vez que o mercado e os riscos da atividade rural conduziram os produtores a buscar novas técnicas de produção e utilizar a tecnologia desenvolvida na época.

     Posterior a esse período, o grande avanço na agricultura moderna foi a utilização do GPS (Global Positioning System), que possibilitou o completo mapeamento das áreas de produção, marcação de pontos e planejamento de processos agrícolas, garantindo o aumento da qualidade e aperfeiçoamento de tarefas da propriedade.

     Pensar sobre as tendências atuais da agricultura requer que se volte o olhar para uma realidade já não tão distante dos produtores. As características do ambiente do agronegócio, com a natureza sazonal da agricultura, contribuem com a necessidade de utilização de novas ferramentas para alavancar a propriedade. Os resultados das decisões na adoção de novas práticas muitas vezes não aparecem de imediato. Resultados relacionados a assertividade no plantio ou às aplicações dirigidas de agroquímico e fertilizantes geralmente levam meses e mesmo anos para se materializar, bem como decisões relacionadas a investimentos em novas tecnologias. Ainda assim, o investimento de médio e longo prazo é visto como um dos principais impulsionadores da produtividade, rentabilidade e competitividade nas propriedades brasileiras.

     Diferentemente das outras potências agrícolas mundiais, possuímos um clima tropical, com desafios técnicos muito diferentes de outras regiões tradicionais em agricultura, o que fez com que tivéssemos de criar tecnologias adequadas a essa condição. Apesar do grande crescimento nos últimos anos e da popularização de algumas ferramentas, o Brasil ainda está em processo de evolução em adoção de tecnologias.

     Nos dias de hoje a condução dos campos de produção e as operações agrícolas em geral são realizadas de maneira muito diferente quando comparadas às praticadas poucos anos atrás. Podemos relacionar o salto em produtividade diretamente ao gerenciamento das lavouras, desde à implantação até o momento de colheita. A tecnologia agrícola evoluiu com o uso de sensoriamento, telemetria e sistemas integrados de dados.

     A gama de tecnologias disponíveis para a agricultura de hoje se torna um divisor de águas no setor. Como exemplo, podemos citar algumas que de fato auxiliam o incremento da produtividade. Entre eles estão:

  • Sensoriamento Remoto

    Se refere ao uso de sensores inteligentes e imagens aplicados na agricultura possibilitando um monitoramento total da lavoura, capazes de detectar desde a sanidade de folhas até o teor de nitrogênio no solo. Estes sensores alinhados com a tecnologia de conexão permitem o monitoramento constante e em tempo real. Cada produtor pode buscar no mercado o tipo de sensor e o método de captação de dados que mais se adéqua as suas necessidades. Com o monitoramento da sanidade de plantas, por exemplo, é possível a detecção de doenças nos seus estádios iniciais, possibilitando rápida ação para o controle.

     Os dados provenientes desta tecnologia agrícola ainda podem ser utilizados para a formulação de indicadores (KPIs), que possibilitam o acompanhamento da performance da lavoura em função do tempo.

  • Telemetria e Agricultura de Precisão

     Os dados de GPS permitem que produtores, pesquisadores e consultores agrícolas consigam delimitar espaços da propriedade para analisar e tratar avanços de doenças, insetos e plantas daninhas, bem como avaliar as condições do solo. Além disso, esses registros podem entrar em um banco de informações que servirá para análises posteriores com fins de comparação e histórico.

    Os softwares acoplados às máquinas e conectados via satélite dão informações valiosas sobre localização e rotas das máquinas, evitando a sobreposição na aplicação de insumos. Além disso, evita-se que produtos sejam liberados fora da área destinada ao plantio. Assim, quando a máquina passa por uma área já trabalhada, ela desliga automaticamente. A redução de desperdícios resulta na diminuição dos custos de produção.

     Através das ferramentas utilizadas na Agricultura de Precisão, já é possível realizar o zoneamento de ambientes de lavoura para trabalhar com zonas de manejo, tratando o campo metro a metro, ou até centímetro a centímetro, variando a população de plantas em determinadas áreas ou a quantidade de fertilizante de acordo com a fertilidade do solo em que se está trabalhando.

  • Big data

     Este termo é utilizado para descrever um imenso volume de dados, extremamente variado que compõe o negócio. O mais importante não é a quantidade de informações, mas sim o que é feito com elas. O Big Data tem sido implementado na agricultura e tem possibilitado o melhor fluxo de informações, uma análise mais rápida e efetiva, levando à melhores decisões e criação de estratégias que passam a ser muito mais baseada em dados do que no feeling do produtor.

  • Drones e VANTs

     Os Drones ou VANTs, Veículos Aéreos Não Tripulados, como também são chamados, são pequenas aeronaves controladas a distância e é o último grande salto tecnológico que a agricultura sofreu. Podendo carregar câmeras de alta resolução e os mais diversos tipos de sensores, permitem que esta tecnologia atue em diversas aplicações.

     Esta tecnologia tem inovado a agricultura, pois permite através das suas imagens e algoritmos específicos a coleta de informações como:

  • Verificação de estande e falhas de plantio;
  • Monitoramento e detecção de pragas e doenças;
  • Medição da eficácia de tratamentos e do uso de agroquímicos;
  • Monitoramento da necessidade de água e insumos.

     E como está o Brasil no cenário de implementação de tecnologias na agricultura? Ainda há muito o que avançar, principalmente pelos seguintes desafios: a falta de serviços de elevada qualidade, como fornecimento de conexão em todas as áreas e propriedades rurais, altos custos de investimento inicial, falta de incentivo do governo e a escassez de mão de obra qualificada para a operação de equipamentos.

     Esse último talvez seja o mais preocupante, onde o perfil do trabalhador rural deverá mudar drasticamente. Ele deixará de ser apenas um operador de máquinas e se tornará responsável pelo monitoramento de uma nova tecnologia. Isso exige dele novas qualificações, em um cenário onde a mão de obra no campo ainda tem muito o que evoluir.

     As tecnologias embarcadas geram informações para a tomada de decisões. Diante disso, é necessário encontrar trabalhadores qualificados e capazes de interpretar um grande volume de dados, afinal, a coleta e a análise desses registros são o primórdio do agronegócio digital. 

     Mas o fato é que o produtor rural sempre se esforçou física e mentalmente para obter os melhores resultados na agricultura. A tecnologia visa direcionar agora as suas energias para as atividades que realmente agreguem valor e necessitam de sua maior atenção e tempo.

     Os recursos tecnológicos conduzem o produtor rural para o uso estratégico dos dados digitais, ampliando as chances de sucesso e a formação de base de conhecimento específico sobre a sua propriedade rural, para assim poder otimizar as suas práticas de gestão do agronegócio.

     Como vimos, a tecnologia na agricultura beneficia os trabalhadores do campo com processos produtivos mais inteligentes, automatizados, que exigem menor esforço e empregam os insumos agrícolas de forma mais racional e econômica. Tudo isso possibilita o gerenciamento remoto do agronegócio com precisão absoluta. Todas essas tecnologias revolucionam o setor agrícola e tem possibilitado resultados nunca imaginados.

     As soluções disruptivas que a tecnologia impõe modificaram os processos nos mais diversos setores e o agronegócio não poderia ficar de fora.  Estamos a poucos passos da Agricultura 4.0.

Rodrigo Soares Hilbert - Engenheiro Agrônomo da Castrolanda Cooperativa Agroindustrial Ltda

E-mail: rodrigo_hilbert@castrolanda.coop.br

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